06 maio 2007

 

Vagabundos

Naquela tarde, pela primeira vez, proferiu a palavra e escreveu-a na areia molhada, deixando-a para trás, como um testemunho que o mar guarda no ritmo descompassado da maré.
Minutos antes frente ao mar, com os pés enterrados no areal, recuperou o gosto salgado dos salpicos das ondas. Ou seria o líquido dos olhos ainda quente que lhe turvava a vista. Ou seria a Luz intensa que lha feria o olhar? Seria tudo uma reacção física ao vento frio do fim da tarde? Sim, não mais que isso!
No regresso a Lisboa pulsava-lhe o peito em ritmos alternados, sustentados pelo movimento contínuo dos pés, pelas mãos que teimavam em marcar o ritmo, como se respirasse música. Como se estivesse ligada a um tubo de oxigénio que lhe enchia o corpo, um soro timbrado que lhe percorria as veias e alimentava as células, a pele, o sorriso.
Já passava das sete da tarde quando subia as escadas do prédio. Gostava de refrescar as mãos no corrimão, deslizando-as em tom e carícia, mas naquela tarde, os braços caídos ao longo do corpo, retardavam as pernas trémulas, amortecidas.
O som metálico da chave rodou três vezes antes de abrir o espaço que anuncia a casa. Atrás de si, sem surpresa, o som seco da porta de madeira.
Deixou-se cair no chão, segurando os joelhos com os antebraços. Estava cansada. Mas valera todo o esforço, pois nessa tarde a palavra ficara escrita. O compromisso fora formalmente selado no tecido da areia, sob o testemunho do sal.
A casa diminuíra de súbito, o tecto descia, a luz do dia anunciava as últimas horas e a fome esmagava o estômago dando sinais do corpo vivo.
Tinha receio de adormecer naquele soalho, mas queria despir as lentes que não lhe transpiravam os olhos. Queria enterrar-se no soalho quente e curvar-se sob a dor aguda, guardada no recanto do corpo onde a saliva desce.
As mãos frias enterradas nos cabelos perderam a missão do amparo, a dimensão do abraço, o testemunho da escrita. O espaço da sala rodava as horas, queimava o incenso doce, enquanto a caneta deslizava na folha branca para reproduzir os caracteres da palavra abandonada da praia.
Tinha de repetir-se nesse verbo! Tinha de repetir-se nele e escreveu-o até o imprimir no cérebro, na ponta dos dedos, nos ecos e espirais da respiração.
Era tarde quando saiu de casa. Não conseguiu desligar o leitor de CD’s. O Tom Waits ficara na sala… era agradável imaginá-lo ainda a conversar quando regressasse a casa, ao fim de umas horas.
Acabou por encontrar-se a caminho do Bairro Alto. Entrou no bar sinalizado pela sua sede, fingindo procurar alguém conhecido como se tivesse chegado antes da hora.
Sentou-se na mesa de madeira, ajeitou a madeixa que lhe escondia o olhar, limpou com a manga do casaco a cinza do cigarro de alguém e bebeu lentamente o líquido loiro, sugando a espuma branca, agridoce. Rodava o copo entre os dedos, abortando o percurso das gotas que o sangravam, escondendo o embaraço de estar a ser analisada por seis olhos na mesa do lado.
Ao balcão contou os trocos no mármore frio, pediu mais uma imperial e saiu pelas ruas do Bairro da Cidade onde ninguém a lia.
Acabou a noite num bar incógnito do costume, acompanhada da dança da caras de sempre, dos amantes da mesma música, dos amigos. Dançou até se esquecer de si, do grafismo da praia.
Ao chegar a casa, o Tom já tinha saído para um bar qualquer, é este o código dos vagabundos.
O incenso já não queimava as horas. Sentou-se no sofá: rodava Fauré, sempre Gabriel Fauré e adormeceu, esquecendo-se de tirar as malditas lentes que travam a queda do líquido dos olhos.
É domingo. Canta-se a capella na baixa. Antes de sair reescreveu a palavra. Mas para quê? Se sempre nos dissemos nos silêncios. E eles sim, têm todo o sentido do verbo.
Estás aqui nestas palavras. E no silêncio que se segue. Para quê querer-te mais?

# publicada por Chandra @ 5/06/2007
Comentários:
Como sempre, estavas linda a dançar maravilhosamente. Cuida-te miúda, o teu amigo JP, palhaço mas atento!
# publicada por Anonymous Anónimo : 07 maio, 2007
 
Passo por aqui... escrevo pela primeira vez pois gostaria de ler mais, com esta autenticidade que não é nada face ao que já li de ti. Escreves a sério! Falta-te apenas a coragem, continua...
# publicada por Anonymous Anónimo : 07 maio, 2007
 
Um blog feito de vagabundos anónimos e passageiros... dedico-vos o Revisited 10.
# publicada por Blogger Chandra : 07 maio, 2007
 
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