24 fevereiro 2008

 

Rescaldo em tons violeta

A vivência da música faz-nos sentir que nada é efémero, eleva-nos a estados superiores de consciência e anuncia a plenitude num abrir e fechar de olhos.
No rescaldo do concerto de hoje na Culturgest, é possível afirmar que Olivier Messiaen é mais do que um místico, um crente, um génio da composição musical. Messiaen legou-nos nas suas partituras, a vivência da música como testemunho da divina experiência. As Três Pequenas Liturgias para a Presença Divina testemunham a plenitude que ultrapassa a consciência humana. Estas liturgias são mais do que um legado de um músico místico e crente. Ultrapassam a estética da música sacra, transbordam os limites da música religiosa. As três pequenas liturgias de Messiaen constituem um legado de vivência celestial, que nos eleva a uma dimensão sideral. Falamos de outra plenitude, da dimensão astral, algo que nos transcende e dissocia, nos acolhe, eleva e transfigura.
No decurso dos ensaios com o maestro Jean Sebastien Béreau, o colectivo feminino do Coro de Câmara da Universidade de Lisboa (CCUL), foi convocado a converter a plateia. Dizia Béreau: “se no final desta peça, os ouvintes não saírem convertidos, então não se conseguiu o efeito musical, visual e estético pretendido por Messiaen”.
Aluno de Messiaen no conservatório de Paris, Jean Sebastien Béreau converteu-se definitivamente ao trabalho do compositor com estas Três Pequenas Liturgias.
Num dos ensaios, Béreau partilhou com o coro e com a orquestra a sua primeira reacção ao escutar esta obra: “i’l y a quelque chose qui se passe… il y a quelque chose…”
Após o excelente trabalho realizado com o coro, pelo maestro José Robert e o maestro assistente Luís almeida, a junção vocal ao suporte orquestral permitiu o deslumbramento de todos. Da enorme massa sonora que irrompia da sala de ensaios da Orquestra Metropolitana de Lisboa, a energia celeste das três liturgias ganhava cor, corpo e alma, contagiando e convertendo os intérpretes à trilogia de liturgias celestes.
O desenho estético da obra, e grande parte da sua singularidade caracteriza-se pela utilização das Ondas Martenot, instrumento excepcional desenvolvido por um contemporâneo de Messiaen, Maurice Martenot cuja transcendente beleza sonora fazem emergir uma estética metafísica… “mon royaume de silence”.
Aliado a toda esta estética, o desempenho do solista das Ondas de Martenot
Claude-Samuel Levine destacou-se não só pelo talento e devoção a Messiaen, mas também pelo carinho e deslumbramento com que nos presenteou, pousadando como um pássaro nos nossos corações.
Foi carinho, amor, e enorme arrebatamento que se sentiu no final da peça, e foi nesta esfera de graça que se celebrou o almoço, em festa, em convívio, com os temas de Fernando Lopes Graça, na comoção do maestro Béreau, na consagração da música e nas saudades que já se adivinhavam.

Ainda a propósito das Três pequenas liturgias, dizia Messiaen:
«Parece-me que é preciso ouvir a minha música esquecendo o seu sucesso (bem como as polémicas que o envolveram), e esquecendo a própria música. Que faz uma rosácea de catedral? Ensina pela imagem, pelo símbolo, através de todas as personagens que a compõem – mas sobretudo impressiona o olhar pelos milhares de manchas de cor que a constituem, que finalmente se resumem a uma só cor, muito simples, a tal ponto que aquele que a contempla exclama somente: esta rosácea é azul – ou: esta rosácea é violeta… Eu não quis fazer senão isso…»
Os sons da orquestra, as ondas do Claude, as mãos dos maestros, as vozes humanas, desenharam uma rosácea de cores. Desenhámo-la em abraços e outros laços, como anjos sustentados nas cores de Messiaen. Estamos convertidos
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# publicada por Chandra @ 2/24/2008
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