27 abril 2008
Dueto a solo voce

Já lhe chamaram a “maga da voz”, a “imperatriz da improvisação vocal”, mas Meredith Monk, excede qualquer rótulo e impõe-se a todas as expectativas. A Senhora Monk conserva a pureza vocal, um timbre quase inumano, a ousadia e audácia que lhe permitem desafiar os limites do corpo e do espaço. A meu ver, Monk é mais do que uma artista, uma criadora, é mensageira das potencialidades extremas da voz, do cérebro e da criatividade humana.No passado Sábado Meredith Monk
regressou a Lisboa para um concerto no Grande Auditório do CCB, um concerto onde se apresentou com 3 elementos do seu Vocal Ensemble para uma viagem, em jeito de retrospectiva do seu imenso trabalho.Para deleite dos incondicionais fãs e para assombro de quem assistia, pela primeira vez à performance de Meredith Monk, o concerto de Sábado foi um desfile de temas antigos, um regresso ao passado, a consagração de obra feita.
De início Monk surpreendeu-nos com a modesta tentativa de apresentar todos os temas em português, recolhendo aplausos e risos da plateia que subitamente se pasmou com o dueto para uma voz. Sim Monk consegue fazer duetos, a uma voz, pois encerra na laringe um ensemble de cordas vocais, faz uso contínuo de uma audição absoluta e quebra o gelo interpretando temas de Facing North na companhia do multi voce Robert Een.
Depois do intervalo, seguiu-se uma das minhas composições favoritas de Monk: Gotham Lullaby (1975), magistralmente interpretada a solo num piano de cauda, seguindo-se Traveling (1973), Madwoman’s vision (1988), e vários temas da ópera vocal ATLAS (1991), The Hips Dance da s Volcano Songs (1994), o fantástico Panda Chant I e a Memory Song (1984). De Turtle Dreams foi interpretado pelo emsemble o Tokyo Cha-Cha com recurso a um Fender- Rhodes avariado, o que dá sempre uma certa piada à improvisação vocal e outras formas aos silêncios. Viva Jonh Cage…
O concerto terminou com dois temas novos que integrarão o próximo registo do Ensemble de Meredith Monk, dos quais destaco a poesia, a simplicidade, a beleza e magnitude da canção “Between Song”.
Apesar de um mergulho universo dos contemporâneos, o concerto acabou da forma mais clássica possível: uma ovação de pé!
Assim se iniciou uma semana em que Lisboa assiste à passagem de grandes nomes da música e da dança contemporânea.
A seguir: Pina Bausch e Einstürzende Neubauten.
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