27 outubro 2008

 

O Teatro e o seu Duplo

"A dreamer is one who can only find his way by moonlight, and his punishment is that he sees the dawn before the rest of the world".
Oscar Wilde


O pano voltou a subir no Estrela Hall. Como dizia o Beckett nada como tentar outra vez e falhar melhor. E tu também voltaste ao teu mundo. Tal como disseste no foyer entre lágrimas e esgares de de almofadas rotas: welcome to my world the ass is the center. Isto é Teatro! Não fora o Teatro o palco onde se resgatam as gargalhadas e se reaprende a arte de chorar. Artaud falava do Teatro e do seu duplo. E o duplo do teatro é o fim. O fim da peça, o fim do silêncio, o fim das ressonâncias de Moliére, o fim dos limites, o fim dos medos, o fim das eras de recolhimento. Ainda bem que voltaste e recomeçaste o fim!
É por fim e sem temer o final, que os Lisbon Players continuam a dar-nos o teatro puro! É Teatro sem pompa mas com a circunstância. Encheram e encurtaram as distâncias renovando a vontade de recuperar o ritual de voltar pelo menos uma vez por mês.
Enquanto casa não vai abaixo e a disputa pelos direitos fiduciários do Estrela Hall continua acesa, abrem-se as portas para receber amigos, conhecidos, voluntários, amantes do teatro, da música, das ilusões. Ali no “quarteirão inglês” (à rua da estrela 10) reside a vontade de continuar a representar Ibsen, Beckett, Shakespeare, Ionesco, e há o glam do british accent e do tuga mal amanhado. No palco o céu é o limite e vale tudo, tudo reencarna em novas formas e renovados conetúdos: a Britcom, Sinatra, ilusionismo e tal, afro-china-blues (há muito tempo que não ouvia uma voz de blues assim!), drag queens, stripers typers…
É o Teatro em todo o seu esplendor, reactivando a fantasia e as memórias, acolhendo os amigos no Hall da Estrela. Lá cheira a alfarrabistas e desmaquilhante barato, há lantejoulas do século passado, convidados que nunca chegaram a ser e aguardamos a tua entrada em cena com um copo de vinho tinto sobre o joelho. Há um sofá dos anos quarenta, uma Virgínia Wolf perdida na parede, livros de I. Welsh, O. Wilde, S. Plath, ao preço da uva mijona. Há mantas de ratalhos hand made by Mary, a chaleira branca a dois euros que ninguém levou para casa. E depois, já quando as plumas ficam cobertas de eyeliner borrado, os convidados mais velhos se recolhem nas memórias de Edmund White e James Joyce, subimos ao palco para dançar os Cd’s velhos do DJ improvisado. Rodava a Sagres, a Super bock e o Gin de terras de Sua Majestade, acabadinho de sair na rifa de angariação de fundos, parece que a Shirley Bassey também passou por lá. The Queen is dead but not the Theater.
Tenta novamente, falha novamente mas falha melhor. Nada mais te posso dizer Honey Bunny. Bem vinda ao teatro continua no teu mundo! The show must go on! Keep on dreamer... i love to seen your dawn.

# publicada por Chandra @ 10/27/2008
Comentários:
ainda sinto os olhares gulosos e o friozinho no estomago...
Ai mulheres, o amor é uma duna e nos somos o deserto!
Capazes de sempre mais.
# publicada por Blogger amnia : 27 outubro, 2008
 
Pensava que nos comparavas aos cactos...
Um chá no deserto, lembras (?), Bertolucci no seu melhor!
# publicada por Blogger Chandra : 27 outubro, 2008
 
huum, cato soa-me a seco, mas soa também a salvação. de quem souber passar além dos picos e beber o nosso interior sem receios.

Somos a areia do deserto, imtemporal e imortal. e às vezes, quando chove sem parar durante dias a fio, damos berços a flores de cores inimagináveis e beleza imensa. Etérea, passageira, fútil. Como o amor.
Mas regressado o estio, acolhemos o vento agreste e seco como quem acolhe uma brisa fresca à beira mar ao lado de uma amiga com um copo de margarita na mão.
Somos enormes como a paisagem, frageis como o grão mais leve que se perde da duna que foi o sentimento e a memória de ontem.
e a mais bela alvorada é dentro de nós (ou ao nosso lado)
# publicada por Blogger amnia : 27 outubro, 2008
 
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