29 outubro 2008
Viagens na minha terra
Semana de ensaios. Corremos ao fim do dia para a zona norte de Lisboa. Aguarda-nos mais um ensaio, desta vez com a orquestra. A sala é fria, as vozes estão ainda em bruto, afinam-se as cordas, os metais soam quentes e começa a peça ao gesto impetuoso do maestro. Cantamos pela primeira vez com a orquestra e ainda não sabemos como vai soar esta majestosa união. O compositor está presente: Eurico Carrapatoso. Sentado a um canto da sala, partitura na mão, olhar vago, corrige os ritmos e os andamentos, delicia-se com o esboço daquilo que já está escrito. A orquestra toca. Avançamos com eles na cavalgada, no pulsar das trompas, à procura do "Lá" que virá dos violinos e marca a nossa entrada. No final de cada andamento, pousamos a partitura nos joelhos e sentamo-nos. Miramos, pelo canto do olho, o Eurico como quem procura um sinal, um gesto de aprovação, enfim.. ainda agora começámos. O encantamento com a Harpa, mesmo à minha frente, faz-me esquecer a entrada. Não entrando a tempo, fico ali de pé, apenas a ouvir, acaba-se o segundo andamento: " Offertorium". Neste momento percebo que nunca conheci outra morada. E o irónico é que voltaremos ao Vale de Santarém para cantar este Requiem. Voltamos às terras de Garrett...
Sobre o Requiem à Memória de Passos Manuel:
(...) Eis a passagem que o barítono declama sobre uma cama de timbres pianissimo na harpa e uma melodia da lontano da trompa: (...) No fundo de um largo vale aprazível e sereno está o sossegado leito do Tejo, cuja areia ruiva e resplandecente apenas se cobre de água junto às margens, donde se debruçam verdes e frescos ainda os salgueiros que as ornam e defendem(...): o mais belo, o mais grandioso, e ao mesmo tempo, o mais ameno quadro em que ainda pus os meus olhos. Seguidamente canta uma das minhas páginas musicais mais queridas: Com os olhos vagando por este quadro belo e formosíssimo, a imaginação tomava-me asas e fugia pelo vago infinito das regiões ideais. Depois entra o coro impalpável no In Paradisum litúrgico. O Requiem partiu do fim. Aquela foi a última intervenção do solista, metamorfoseado em Almeida Garrett. Foi para mim absolutamente imperativo pôr o Almeida Garrett a cantar nesta obra a paisagem privada do Passos Manuel, a sua janela para o mundo e, consequentemente, a sua mundividência.
Depois de referir este traço fundamental que atravessa e determina toda a obra, devo apenas acrescentar que este Requiem não tem a sequência do Dies Irae. Esta sequência que fez as maravilhas das motivações teatrais de tantos e tantos compositores, não me interessou aqui tratar. A minha visão é muito mais serena. Tendo em conta a figura homenageada de Passos Manuel, um homem de cultura e de extrema subtileza, quis cantá-lo assim, sem retórica ribombante, sem bateria e sem metais reforçados. Não o Deus da ira, mas o Deus da paz. O seu gesto e a sua memória mereceram-me esta consonância."
Eurico Carrapatoso, Lisboa, 7 de Agosto de 2005
Comentários:
<< Página inicial
:) que saudades dessa atmosfera de ensaios... como eu gosto daqueles momentos de espera enquanto os instrumentos se afinam, as sopranos aparvalham, os baixos admiram o rabo dos tenores e estes, admiram o rabo das sopranos :)
Fazer música é das coisas mais maravilhosas que vivenciei até agora, por isso, diverte-te muito neste 'Side B' coral e n estando eu lá para aparvalhar ctg, estás tu, que vales por duas ;)
LM
Fazer música é das coisas mais maravilhosas que vivenciei até agora, por isso, diverte-te muito neste 'Side B' coral e n estando eu lá para aparvalhar ctg, estás tu, que vales por duas ;)
LM
Conheço alguns baixos que não iam gostar dessas constatações. Por outro lado tb conheço alguns tenores que nem por isso
"os baixos admiram o rabo dos tenores e estes, admiram o rabo das sopranos :)" posso por esta frase no meu nic?? é tão lindaaaaa
Se tiveres acesso à gravação do espectáculo A Floresta, composto por ele, aconselho vivamente. Foi produzido pelo Teatro S. Luíz e foi lá que também acabou por ser reposto há aproximadamente 2 anos. Não sei se após isso ele conseguiu dar continuidade ao projecto, tratava-se de uma belíssima ópera infantil.
Um bem haja
Um bem haja
Vou estar com ele em breve e se puderpergunto-lhe onde pára a Floresta.
Onde se pode encontrar a gravação do espectáculo, se é que existe registo audio/vídeo?
Onde se pode encontrar a gravação do espectáculo, se é que existe registo audio/vídeo?
Na altura fizemos uma gravação simpática do concerto, nada de muito profissional pois estávamos concentrados na operação do espectáculo ao vivo e não no seu registo mais eficiente.
Estou convencido que ele levou uma boa gravação disso pois estava no momento a tentar vendê-lo para uma companhia/sala de espectáculos alemã, pelo menos foi o que me disse na altura.
Eu tenho essa gravação, mas se o conheces talvez não seja má ideia falares com ele, pois a divulgação não autorizada de gravações dos espectáculos levanta algumas questões legais.
Bau? :)
Enviar um comentário
Estou convencido que ele levou uma boa gravação disso pois estava no momento a tentar vendê-lo para uma companhia/sala de espectáculos alemã, pelo menos foi o que me disse na altura.
Eu tenho essa gravação, mas se o conheces talvez não seja má ideia falares com ele, pois a divulgação não autorizada de gravações dos espectáculos levanta algumas questões legais.
Bau? :)
Subscrever Enviar feedback [Atom]
<< Página inicial
Subscrever Mensagens [Atom]
Hiperligações
Arquivos
- outubro 2006
- novembro 2006
- dezembro 2006
- janeiro 2007
- fevereiro 2007
- março 2007
- abril 2007
- maio 2007
- junho 2007
- julho 2007
- agosto 2007
- setembro 2007
- outubro 2007
- novembro 2007
- dezembro 2007
- janeiro 2008
- fevereiro 2008
- março 2008
- abril 2008
- maio 2008
- junho 2008
- julho 2008
- agosto 2008
- setembro 2008
- outubro 2008
- novembro 2008
- dezembro 2008
- janeiro 2009
- fevereiro 2009
- março 2009
- abril 2009
- maio 2009
- junho 2009
- julho 2009
- agosto 2009

