24 março 2009
Anima et Animus
Saímos pela porta das traseiras de partituras na mão e gargantas ressequidas. Há duas horas que cantávamos Maurice Duruflé, uma espécie de martírio pascal, a penitência quaresmal das cordas vocais, um cilício de pauta. Em cada nota grave, a via-sacra, rumo ao calvário da afonia. Cantar os doutores da igreja, há com cada maluco na música! De S. Tomás de Aquino às visões místicas de Santa Teresa de Ávila, Tótta Pulchra Es Maria, ou por favor, tirem-me desta linha melódica! Afim de recriar o ambiente de revelação mística, o compositor apostou no contorcionismo vocal. Em cada nota, a tormenta. Em cada cadência, revirávamos as pálpebras, encarquilhávamos os dedos na partitura, e olhávamos para o relógio digital aguardando o “divino suspiro”.Depois do suplício vocal, saímos do ensaio a rir! “Pudera – exclamávamos - o tipo dá-nos cabo da voz!”- mas sabíamos que o melhor estava para vir! Já muito longe do estado de beatitude, percorremos as ruas de Lisboa como se fossemos para um botequim cubano, cheirar charutos e beber rum até o dia clarear. Conversar de poesia, de Walt Whitman, da música de Rostropovich à Atalante de Jean Vigo. Os temas pós ensaio fazem-me duvidar sobre os verdadeiros motivos que nos levam a fazer música? Serão os ensaios, os concertos, os bastidores? Penso que fazemos música por e com tudo isto mas, acima de tudo, por um ímpeto de alma, um insconsciente antigo, um código cravado na "anima mea". Pela fraterna companhia dos amigos, pelo privilégio de fazer música em conjunto, para redescobrir almas velhas!
Entrámos no carro estacionado num recanto proibido do Jardim das Amoreiras. A conversa pulsava, serpenteava as vias rápidas de Lisboa, acompanhava como o pedal do violoncelo, as teclas do piano no automático regresso a casa.
Logo no jardim que acolhe o sono de Siza, V coloca-me um saco no colo! “Loja do Museu do Oriente” explicava o pequeno saco de preto. Hesitei, olhei para o sorriso de V e logo percebi que se trataria do livro, não uma herança do Oriente, mas o livro que procurámos no dia anterior depois de termos dissecado o gosto comum por Clint Eastwood. As pontes de Madison County.
"Lê, vais adorar."- dissera-me V.- "Vais chegar à conclusão que ninguém melhor que Eastwood e M. Streep para dar corpo à magnitude deste livro".
Atrás do livro, dentro do mesmo saco, um cheque oferta...
Agora tenho de vos falar das almas velhas.
Depois das Cidades, depois de Carioca, depois de longas conversas sobre Chico, Circos Místicos e Bailarinas, a actriz e a Beatriz, a filha Catarina, o violão e o piano que parece já ouvi tocar…
Depois das horas à porta de casa, das voltas ao quarteirão para prolongar conversas, da música que fazemos juntas e já cantámos em palcos estranhos, veio a “Gota d’Água”! A Gota d’Água é a promessa de estarmos juntas na plateia do CCB.
Chico Buarque tem, entre outros, o dom de juntar almas, almas velhas que andam por aí, à procura de uma tertúlia qualquer. Chico sabe disso, pois ele escreve em "Estorvo", e tem o mérito de fazer qualquer um querer voltar a "Budapeste". Lembras-te como no Domingo, depois do ensaio, a Almirante Reis estava tão parecida com a cidade de Liszt? Lembras-te da imagem que já guardamos da colina da favela, por onde sobe o homem só, ao som do realejo e do Rio que serpentina lá em baixo nos subúrbios? E aquelas três primeiras notas da Inútil Paisagem? "Mas para quê? Para quê tanto sol, para quê tanto mar?"
Para quê tantos anos? Chico tem o mérito de juntar almas velhas. É por isso que teimamos continuar a cantar: "Tuus totus ego sum, et omnia mea tua sunt, Chico!"
Depois das Cidades, depois de Carioca, depois de longas conversas sobre Chico, Circos Místicos e Bailarinas, a actriz e a Beatriz, a filha Catarina, o violão e o piano que parece já ouvi tocar…
Depois das horas à porta de casa, das voltas ao quarteirão para prolongar conversas, da música que fazemos juntas e já cantámos em palcos estranhos, veio a “Gota d’Água”! A Gota d’Água é a promessa de estarmos juntas na plateia do CCB.
Chico Buarque tem, entre outros, o dom de juntar almas, almas velhas que andam por aí, à procura de uma tertúlia qualquer. Chico sabe disso, pois ele escreve em "Estorvo", e tem o mérito de fazer qualquer um querer voltar a "Budapeste". Lembras-te como no Domingo, depois do ensaio, a Almirante Reis estava tão parecida com a cidade de Liszt? Lembras-te da imagem que já guardamos da colina da favela, por onde sobe o homem só, ao som do realejo e do Rio que serpentina lá em baixo nos subúrbios? E aquelas três primeiras notas da Inútil Paisagem? "Mas para quê? Para quê tanto sol, para quê tanto mar?"
Para quê tantos anos? Chico tem o mérito de juntar almas velhas. É por isso que teimamos continuar a cantar: "Tuus totus ego sum, et omnia mea tua sunt, Chico!"
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