06 maio 2009
Feira ma non troppo
Depois do malfadado diploma, saturada dos pareceres dos outros, relatórios alheios e problemáticas específicas que por sinal nem são as minhas, resolvi largar a secretária pouco minutos depois das seis da tarde. Subi a Avenida e rumei à Feira do Livro de Lisboa. Procurava as edições da Lonely Planet. Traçara a visita à Feira com firmes intenções nas opções de compra: evitar desbaratos e comprar apenas um bom guia de viagens!A "Casa das letras" já não distribui a Lonely Planet e não encontrei relatos da rota pretendida. Acabei por descurar as boas intenções. E assim se perde a cabeça na Feira do Livro. De Sepúlveda a Vargas Llosa, aos alfarrábios quase podres de Rilke e por fim, o último Patrick Modiano que já se gasta nas horas mais lentas da noite.
Mas a Feira do Livro de Lisboa é mais do que uma tentação, é um ritual. É o chá fresco nos fins de tarde, a leitura bucólica na relva lateral, é perfume da primavera lisboeta, o rio lá ao fundo. É Maio no seu esplendor, o cheiro a massa frita polvilhada com açúcar e canela, é a recordação dos saudosos dois dedos de prosa com o Nobel nosso que nos “escreve de um país distante”.
Ultimamente tenho reparado que há mais gente a ler na relva dos jardins de Lisboa, mais gente a ler no metro, nas esplanadas, nos intervalos das horas de ponta. Gente feliz com livros, ou gente que sonha poder comprá-los. Artes marciais ou o tradicional desembaraço do português, pois a verdade é que a generalidade dos herdeiros de Pessoa estão longe de poder suportar esse luxo! Falo do IVA e outros preços, dos gastos que não se podem agendar em detrimento dos bens essenciais.
Será que ler um livro é um acto estético, um luxo, um capricho, uma mania de elites, o charme discreto do pequeno burguês? Não será por certo, mas os preços assim o indicam. E seria supostamente numa Feira do Livro que se deveria inverter essa tendência!
Feira ma non troppo, é que nas feiras e mercados o que se comercializa é, por natureza, a preço de feira.
Na Feira do Livro, tirando as excepções dos livros do dia com 40% de desconto, poucas excepções dão desconto aos preços praticados. Será a literatura um luxo de elites? Existirá uma literatura de classes ou a literatura de géneros?Lá diz Ian Mcewan: “when women stop reading, the novel will be dead”.
Hoje vou resistir a passagem pelo Marquês, sou obrigada a inverter a rota, vou chatear o Camões.
Ainda assim, vale a pena ir à Feira. É que Lisboa é nossa, o Parque é livre e o ar é de todos!
Hoje vou resistir a passagem pelo Marquês, sou obrigada a inverter a rota, vou chatear o Camões.
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