19 junho 2009

 
A propósito de Budapeste de Chico Buarque escrevia José Saramago:
"(...) O mais desassossegador, porém, é a sensação de vertigem contínua que se apoderará do leitor, que em cada momento saberá onde estava, mas que em cada momento não sabe onde está. Sem parecer pretendê-lo, cada página do romance expressa uma interpelação “filosófica” e uma provocação “ontológica”: que é, afinal, a realidade? o que e quem sou eu, afinal, nisso que me ensinaram a chamar realidade? Um livro existe, deixará de existir, existirá outra vez. Uma pessoa escreveu, outra assinou, se o livro desapareceu, também desapareceram ambas? E se desapareceram, desapareceram de todo, ou em parte? Se alguém sobreviveu, sobreviveu neste, ou noutro universo? Quem serei eu, se tendo sobrevivido, não sou já quem era? Chico Buarque ousou muito, escreveu cruzando um abismo sobre um arame, e chegou ao outro lado. Ao lado onde se encontram os trabalhos executados com mestria, a da linguagem, a da construção narrativa, a do simples fazer. Não creio enganar-me dizendo que algo novo aconteceu no Brasil com este livro.”
José Saramago, in O Caderno de Saramago, 21 de Outubro de 2008.

Depois de Estorvo e Budapeste (ainda não li Benjamim), eis o regresso de Chico Buarque da Holanda, o autor dos “universos paralelos”. No seu mais recente romance, Chico repete a proeza literária das criações anteriores, e assina um dos melhores romances em língua portuguesa editados em 2009, confirmando o estatuto que já se anunciava em Estorvo e Budapeste: Chico é um dos maiores escritores brasileiros contemporâneos. Leite Derramado é um livro maior e traça a confirmação de Chico Buarque como um grande nome do universo literário contemporâneo. Em Leite Derramado Chico retoma os delírios literários, derramando a prosa numa sucessão de monólogos contraditórios, inquietando o leitor que lhe espera poesia, “sacaneando” as expectativas de quem lhe espera pudores.
Quando Chico é poeta, aí sim ele é lírico escreve sobre o mundo dos sonhos e atravessa a alma feminina, encanta-nos e canta-nos como ninguém! Chico poeta é "um" de nós mulheres. Mas ao entrar no universo paralelo da prosa afirma-se cru, sátiro, impiedoso, másculo, grunhe, tem coceira, fala vernáculo: é homem, é macho! Aliás todas as personagens principais dos romances de Chico são homens dados a prazeres imediatos, a ilusões de ser, donos do “desejo potencial (…) por todas as fêmeas do mundo, porém concentrado numa só mulher”.
Em suma, Leite Derramado é prosa e da melhor que já se esceveu em língua portuguesa na primeira metade do século XXI. Mas tal como afirmava José Miguel Wisnik a propósito de Budapeste: Leite Derramado, no exacto momento em que termina, torna-se poesia.

Etiquetas: Livros


# publicada por Chandra @ 6/19/2009
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