14 julho 2009
Afinar silêncios em Sines

(…) A família, a escola, os outros, todos elegem em nós um centelha promissora, um território em que podemos brilhar. Uns nasceram para cantar, outros para dançar, outros nasceram simplesmente para serem outros. Eu nasci para estar calado. Minha única vocação é o silêncio. Foi meu pai que me explicou: tenho inclinação para não falar, um talento para apurar silêncio. Escrevo bem, silêncios no plural. Sim, porque não há um único silêncio. E todo o silêncio é música em estado de gravidez.
Quando me viam, parado e recatado, eu não estava pasmado. Estava desempenhado, de alma e corpo ocupados: tecia os delicados fios com que se fabrica a quietude. Eu era um afinador de silêncios.”
Mia Couto, Jesusalém, 2009, pags 15-16.Quando me viam, parado e recatado, eu não estava pasmado. Estava desempenhado, de alma e corpo ocupados: tecia os delicados fios com que se fabrica a quietude. Eu era um afinador de silêncios.”
Jesusalém, o último romance de Mia Couto, é um dos melhores livros de 2009.
Depois de Leite Derramado de Chico Buarque, descubro em Jesusalém outra das grandes certezas literárias da língua portuguesa contemporânea. Jesusalém é daqueles livros cuja leitura retardamos para que o fim não chegue. Jesusalém é livro de raça, da raça dos livros que quando se terminam apetece voltar a ler. É um livro para oferecer a amigos, trazer por perto, citar muita vezes, revisitar em ritual e folhear aleatoriamente quando estamos sedentos de poesia. Se tivesse de escolher um livro para levar para uma ilha deserta este seria, sem dúvida, um dos eleitos. Apesar de já ter terminado o livro demorando-me nas últimas páginas, vou leva-lo na mala para férias. Mia Couto vai estar no Centro de Arte de Sines numa excelente iniciativa promovida em parceria com a organização do FMM'09.
Na página 292 Mia Couto afirma: "Deixo de ser cego apenas quando escrevo".
Dia 20 estarei no Centro de Artes de Sines. Vou pedir ao autor moçambicano que revele a sua visão na cegueira da contracapa do livro que levo nas mãos. Talvez lhe entregue uma carta de baralho, a dama de espadas rabiscada de palavras de agradecimento. Ele perceberá porque...
Etiquetas: Livros
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