05 julho 2009
"My Own Personal Jesus"
Um minuto de silêncio em memória de Pina Bausch. Foi evocando a memória de uma das mais importantes figuras da dança moderna que a companhia de Alain Platel e todo o elenco do CCB deram início a Pitié!.
Tendo por base a partitura original de uma das maiores obras de música sacra de todos os tempos, a Paixão Segundo S. Mateus de J.S Bach, Fabrizio Cassol e Alain Platel apaixonaram a plateia do CCB no passado dia 4 de Julho. "Pitié!" é mais do que uma reinterpretação da Paixão, é um novo Evangelho, e no passado sábado, assistimos à revelação dos “novos profetas” no palco do CCB.
Se é facto que esta obra de Bach é intocável, Alain Platel reinventa uma narrativa totalmente nova e a partir dela Cassol opta por uma soberba interpretação do trio vocal e do Trio Aka Moon, constituindo a base da orquestra, completado por personalidades únicas e sonoridades arrojadas, como é o caso de Magic Malik (flauta transversal e canto) e Serge Kakudji o Personnal Jesus congolês (contratenor, barítono e bailarino).
Serge Kakudji … atenção a este nome! Trata-se um caso muito sério das artes de palco. Nascido em 1989 em kolwezi, Congo, o Jesus de Platel dá provas de excepcional talento vocal convertendo a plateia, contagiando os apóstolos, dançando como se o Evangelho estivesse a ser reinventado na ponta dos seus pés. O Messias de Cassol é o peregrino que dança os sons da Índia, China, África, Cuba, Margrebe. Aliás Cassol é também discípulo do mestre indiano Umayalpuram Sivaram, do senegalês N’diaye Rose e de outros músicos tão representativos como Toots Thielemans, Oumou Sangare (Mali) Santhana Golpaman (Índia), Marc Ducret, Joe Lovano, tendo também colaborado com Anne Teresa de Keersmaker e sua companhia de dança “Rosas”.
Cada um dos três personagens centrais da peça apela constantemente à ideia de misericórdia (miserere nobis), a paixão no sentido do sacrifício último, o maior de todos: o de nós próprios! E até que ponto o podemos consentir? É esta a pergunta que os bailarinos resolvem numa “dança bastarda”, na transposição física de sentimentos impossíveis de conter, na fome da carne, na perfeição dos contornos expostos, na oposição dos contrários e na revolta que se grita: "O Mensch!": “... and the rest of the world can kiss my ass!”
A trindade é recriada numa polifonia a três vozes num contexto musical africano, a partir das influências do Mali e de tradições musicais tão distintas como o gospel, a ópera, o barroco, o contemporâneo, o samba, o jazz… Portugal também está no palco com a excelente prestação de Romeo Runa, um dos luxos que o Ballet Gulbenkian soltou pelo mundo!
E porque a dança também se canta, os corais de Bach são interpretados pelos próprios bailarinos como é o caso do coral O haupt ou o gospel O Susses Kreuz, entendendo-os como a voz do povo, o canto colectivo que invoca a tradição humana: o legado da voz e o direito de usá-la.
A peça desenvolve-se na fusão rítmica de todos os continentes, entre o compasso e o passo, entre a dança e o verbo, a carne e a fome, entre mãe e filho, o parto e o pranto. No fim gritou-se bravíssimo em uníssono. Alguém levou as mãos à cabeça e comovida exclamou: “Eu não acredito nisto!”'
Obrigada Vera por me teres levado a ver e a acreditar! I rest my case...
talvez assim aquele momento fugaz e intenso possa permanecer na memória...essas palavras serão para mim um preciosa ajuda...tenho tanto medo de esquecer!
e o programa, leste tudo? que delícia! o que quererias para a tua última refeição/última ceia? está ali a síntese do nosso tempo
v
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