28 julho 2009
Pau na mula!
17 de Julho- Sexta-feira de Julho tardio e pé na estrada fora de horas. O FMM 2009 começava em Porto Covo à hora em que deixávamos a cidade de Lisboa. Na Vasco da Gama, rumo a Sines terra do senhor das Índias, escutavam-se os CD’s das outras edições do FMM.Não houve tempo para petiscos do mar nem iguarias alentejanas, entrámos no recinto do Festival ainda a tempo de apreciar a música da “Rupa das pernas altas".
Seguiram-se os italianos abusivos que nos deram cheiro a festa e a mar mas não avançaram para além do formato previsível, que é coisa que me chateia quando se fala de italianos. Um bom italiano nunca é previsível.
18 de Julho- Sábado em Porto Covo exige praia, cervejola, petiscada. Sob o pretexto dos percebes rodou a amêijoa, a salada de polvo e o choco frito, uma instituição: obrigatório em qualquer tasca do litoral alentejano. À tarde larga, à beira mar, as delícias foram feitas com a sangria dos reis e a dourada escalfada, ao som do check sound de Dele Sosimi Afrobeat Orchestra, a última banda da noite que apesar do jogo de anca ficaram aquém do esperado! O grande momento da noite foi patrocinado por Vítor Démé do Burkina Faso, a “Terra do Povo Íntegro”. Homem de grande carisma e enorme musicalidade, o africano importou recordações dos sons cubanos e das caras doces dos povos das Caraíbas. É bom constatar que “os povos íntegros” estão espalhados pelo mundo e Démé é um excelente embaixador dessa integridade musical.
19 de Julho- Almoço de despedida dos amigos que partem para o terras do Sol Nascente: honras de lingueirão e açorda de marisco! Depois, praia ao fim de tarde. É belo o entardecer na costa alentejana. A banda sonora deste crepúsculo foi decorada por um grupo de gaiteiros tugas e percussionistas acidentais. Um brinde ao gaiteiro do chapéu verde, à gaita-de-foles de sempre, aos tambores improvisados e à caipirinha abusada de fim de tarde.
Seguiram-se os últimos concertos do lugar de Porto Covo. Corremos para escutar a muito aguardada Orquestra Típica Fernández Fierro da Argentina. Foi o primeiro grande concerto do festival. A rapaziada de Buenos Aires fez justiça à tradição das grandes orquestras de tango da cidade de Piazzolla. Fiéis ao estilo acústico clássico, sem maneirismos "eletro-coisos", importaram arranjos de velhos temas e deram vez a composições arrojadas. Com recursos a quatro bandoneons, três violinos, uma viola, um violoncelo, um contrabaixo, piano e voz, a orquestra típica arrebatou emoções latinas e outras formas suadas de colar a música ao corpo. Não fora as falhas técnicas e alguns “despropósitos” de Walter “Chino” Laborde teríamos assistido a um concerto perfeito.
A importar para uma sala de Lisboa!
20 de Julho: A semana começa tranquila em Sines. E ao fim da tarde no Centro de Artes o esperado encontro com Mia Couto ao som do Check Sound de Mor Karbasi. Dizia Mia Couto enquanto respondia a um desafio da plateia: “… deixei de ouvir por instantes, fui levado por uma voz mágica, encantadora!” o escritor falava de Mor Karbasi a mezzo soprano israelita. Ao que consta, este terá sido um grande momento musical de Sines, mas foi um concerto ao qual fui resgatada pelo apelo do Zambeze, resgate aliás que valeu a pena, até ao fim dos meus dias.
21 de Julho: Mojitos na praia .
22 Julho: Primeiro dia do Castelo. A noite dos sons ibéricos, da guitarra portuguesa, do "redondo vocábulo" cantado em tom maior e outras formas de poesia… a voz da Galiza misturada com as ilhas da bruma. Grande aplauso para Uxía que deveria ter encerrado as portas do castelo.
Mais tarde, os mouros invadiram a Avenida da Praia! Falo de L’Enfance Rouge, um dos maiores concertos do FMM 2009!
22 Julho: Primeiro dia do Castelo. A noite dos sons ibéricos, da guitarra portuguesa, do "redondo vocábulo" cantado em tom maior e outras formas de poesia… a voz da Galiza misturada com as ilhas da bruma. Grande aplauso para Uxía que deveria ter encerrado as portas do castelo.
Mais tarde, os mouros invadiram a Avenida da Praia! Falo de L’Enfance Rouge, um dos maiores concertos do FMM 2009!
Imaginem o som dos Sonic Youth, a adrenalina dos Young Gods, tudo temperado com ao torpor de sons magrebinos. Assisti, como já tinha saudades, a um concerto onde se roeram cordas, onde o cuspo e o suor salpicaram o chão. Les enfants terribles rasgaram os céus de Sines sob o comando da baixista Chiara Locardi que figura semelhante a Kim Gordon e rebenta graves como se herdasse a tessitura vocal de M. Monk, as sombras e ressonâncias do Diamante Galás! Foi um estrondo!
23 de Julho: Castelo de Sines. E finalmente Hanggai, os cowboys da Mongólia. É um privilégio sentir o Castelo conquistado pelo som hipnótico do “Tobshuur” (alaúde de duas cordas) e pelo o conforto melódico dos sons guturais. Muito bom!
Mas a poesia da noite escreveu-se pelas mãos de Chucho Valdés. Foi a noite do grande maestro cubano. Se é certo que o povo cubano foi privado da democracia como forma de governo, a verdade é que foi abençoado pela música como forma de liberdade.
E mais uma vez regressei ao Havana uma das minhas cidades preferidas. Regressei ao Havanna Club, às bodeguitas das calles morenas, aos ritmos do daiquiri aos arrebatamentos do rum! Um enorme concerto à altura do seu protagonista!
23 de Julho: Castelo de Sines. E finalmente Hanggai, os cowboys da Mongólia. É um privilégio sentir o Castelo conquistado pelo som hipnótico do “Tobshuur” (alaúde de duas cordas) e pelo o conforto melódico dos sons guturais. Muito bom!
Mas a poesia da noite escreveu-se pelas mãos de Chucho Valdés. Foi a noite do grande maestro cubano. Se é certo que o povo cubano foi privado da democracia como forma de governo, a verdade é que foi abençoado pela música como forma de liberdade.
E mais uma vez regressei ao Havana uma das minhas cidades preferidas. Regressei ao Havanna Club, às bodeguitas das calles morenas, aos ritmos do daiquiri aos arrebatamentos do rum! Um enorme concerto à altura do seu protagonista!
Depois a noite mereceu outro destaque Kasaï Allstars está visto! Vieram do Congo e a lenda cumpriu-se: “In the 7th Moon, the Chief Turned Into a Swimming Fish and Ate the Head of His Enemy by Magic”.
Com cheiro a Savana seguimos para Madagáscar. O concerto do guitarrista Damily foi um dos melhores momentos do Festival.
24 de Julho: O meu último dia em Sines. Melhor dia de Sines? Em Sines não há dias melhores, há uns a seguir aos outros!
A tarde começou no auditório do Centro de Artes com o concerto do sitarista português Paulo Sousa. Na companhia do tablista Makarand Tulankar, Paulo Sousa retomou a rota de Vasco da Gama e rumámos à Índia. Interpretando os fabulosos ragas Puryia Kalian e Bageshri, Paulo Sousa terminou a rota das especiarias com um Dhun, tema interpretado na "escala de Mi", com sonoridades hindustânicas de influência “gitana” do rajaquistão, algo que lembra a escala da guitarra flamenca e o regresso da nau ao mediterrâneo. Um concerto muito bom a anunciar um outro grande momento da noite com o mestre da "slide guitar" Debashish Bhattacharya.
Mas o momento da coroação, o melhor concerto do FMM, chegou botando o Pau na Mula!
A tarde começou no auditório do Centro de Artes com o concerto do sitarista português Paulo Sousa. Na companhia do tablista Makarand Tulankar, Paulo Sousa retomou a rota de Vasco da Gama e rumámos à Índia. Interpretando os fabulosos ragas Puryia Kalian e Bageshri, Paulo Sousa terminou a rota das especiarias com um Dhun, tema interpretado na "escala de Mi", com sonoridades hindustânicas de influência “gitana” do rajaquistão, algo que lembra a escala da guitarra flamenca e o regresso da nau ao mediterrâneo. Um concerto muito bom a anunciar um outro grande momento da noite com o mestre da "slide guitar" Debashish Bhattacharya.
Mas o momento da coroação, o melhor concerto do FMM, chegou botando o Pau na Mula!
Cyro Baptista, o irreverente percussionista brasileiro arrasou o Castelo!
Cá por casa e em jeito de preparação para o FMM, já rodava o repertório de Beat the Donkey e o alinhamento de “Banquet of the Spirits” (2008), mas nada como assistir à batucada da galera ao vivo e a cores. Estou a falar-vos de um concerto que pode rebentar qualquer um, qualquer lugar! Os ritmos de Cyro e sua rapaziada são pólvora, foguete, rojão, fogo de artifício, bomba de Carnaval, é rolar a anca, sambar sem chão, sapatear partindo cáco, é esplendor, é vida!
Ui... é do melhor!
Ui... é do melhor!
Respira-se ritmo, acertam-se compassos com o dono da mula. A música do Cyro vai do Rock ao samba, toma cachaça no Brasil, vai recuperando os ritmos africanos, passa pelas tribos primitivas, tem pássaro que pia e galinha que toca, corre ao ritmo das cidades, soa a Zorn tropical e a Mozart contemporâneo. É o melhor antídoto contra a estupidez das massas, é bálsamo de alma e rolantim de anca! Naquela noite Sines foi o umbigo do mundo!
25 de Julho: Último dia do Festival. Não fui e não quero falar nisso! Por favor amigos meus, não se casem no final de Julho. Fica o aviso!
25 de Julho: Último dia do Festival. Não fui e não quero falar nisso! Por favor amigos meus, não se casem no final de Julho. Fica o aviso!
Depois de Sines é difícil voltar ao ritmo normal. É uma neura, para falar a verdade!
Mas já diz o Cyro e a sua rapaziada: Pau na Mula!!!!
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