23 maio 2007

 

Zodiac

Inevitável. David Fincher (Se7en, Fight Club) é um realizador que cria grandes expectativas quando anuncia um novo filme centrado na história de um serial killer. Foi assim com “Zodiac”. Fincher regressa às histórias sobre o Mal, optando contudo, por um formato menos estilizado que Se7en. A saga de “Zodiac” é narrada de forma mais realista e descritiva, o que o torna num filme demasiado longo, cru e com alguns pormenores desnecessários. Mas apesar de excessivamente longo, “Zodiac” é um filme de referência, não só por que é um filme sobre outro filme, mas porque relata a inevitabilidade de certos factos, a frustração de certas buscas, a constatação de que o Mal pode ser perseguido mas nem sempre aprisionado.
A história de “Zodiac” desenrola-se nos EUA na década de 60/70. É mérito de Fincher a recuperação da imagem da década, destacando-se as técnicas de realização, a fotografia, a luz e os planos de filmagem. É também muito bem conseguida a recuperação de certos ícones da época, destacando-se o excelente desempenho de Mark Ruffalo que encarna o detective carismático, embora na versão de quase herói.
Fincher opta por analogias explícitas a Dirty Harry (1971) e ao inspector Harry Callahan (recorde-se a cena do cinema com o serial killer Scorpio) parecendo homenagear ou recriar o filme de época.
Mas que filme de época? Em Zodiac o realizador mistura cenários de Hitchcock Shadow of a Doubt
(1943), com os imaginários de Fritz Lang/Murnau (recorde-se a cena da cave, o film noir), recupera The Most Dangerous Game (1932), da dupla Irving Pichel e Ernest B. Schoedsack e parece invocar Orson Welles em Touch of Evil (1958). São tantas as referências e tão descompassadas em termos estéticos e temporais, que em “Zodiac” o espectador parece perder o rumo. A investigação perde o serial killer, as personagens vão perdendo o seu papel (é o caso da fantástica personagem encarnada por Robert Downey Jr), os media perdem o entusiasmo, mas o Mal subsiste por obsessão. A obsessão de um cartoonista, Jake Gyllenhaal: “I Need to know who he is . I need to stand there, I need to look him in the eye and I need to know that it's him."
E assim acontece, num dos últimos planos do filme, basta olhá-lo nos olhos para saber quem é ele: Zodiac. As cenas que se seguem são desnecessárias pois a história ficou contada ali… naquele trocar de olhos.

Etiquetas: Cinema


# publicada por Chandra @ 5/23/2007
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