19 maio 2009

 

"Não existe pecado abaixo do Equador"

Uma parceria entre a Casa da América Latina e a Cinemateca Portuguesa leva às salas da Barata Salgueiro vários filmes provenientes de países da América Latina.
De 27 de Maio a 3 de Junho decorre um Ciclo de nove filmes realizados nos últimos quatro anos, que ilustram a variedade do cinema realizado no Peru, em Cuba, no México, na Argentina e no Brasil, com ficções e documentários.
O Ciclo será inaugurado com La Teta Asustada, baseado no mito andino de que as mulheres estupradas durante a violência política no Peru traumatizavam seus filhos ao dar-lhes o seio para mamar. O filme, que arrancou o Urso de ouro no último Festival de Berlim, mistura antigas tradições culturais andinas com a brutalidade causada pelos movimentos de guerrilha recentes e a sua repressão. A protagonista, cuja mãe fora violada, herdou no leite materno (segundo uma tradição inca, o que explica o título) o medo à vida. Mas depois da morte da mãe, a mulher saberá lutar.
Esta longa metragem justifica, desde já, a corrida à bilheteira da cinemateca e a previsão, no próximo dia 29, de uma travessia arriscada pela cidade de Lisboa de forma a reservar um dos melhores lugares da Sala Dr. Félix Ribeiro.
O Ciclo que se inicia com o trabalho da peruana Cláudia Llosa, prosseguirá com o mais recente filme de Arturo Ripstein, um documentário cubano e um filme de Fernando Eimbecke. Destacamos também a oportunidade de assistir a La Cienága (2002) de Lucrécia Martel, realizadora de " A mulher sem cabeça" e que encarna um dos melhores exemplos do moderno cinema argentino independente.
Um ciclo absolutamente indispensável.
Aqui fica o Programa.

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19 março 2009

 

O político e o mito.

Dizem que Steven Soderbergh "omite o homem real e filma o mito político".
Ainda não vi este "Che" pelo que não posso opinar. Mas não me apetece NADA alimentar polémicas acerca d'El Che, d'El Comandante, da ideologia, das consequências, das gerrilhas e dos resultados das revoluções. Apetece, apenas, ir ao cinema. Ver um Soderbergh com um Benicio Del Toro. Apetece matar saudades da América Latina, a América que ainda canta :Hasta Siempre Comandante!
Os Europeus sentam-se à mesa de um café a trocar ideias, os latino americanos sentam-se no chão a traçar caminhos. Por vezes sobem às mesas e dançam, batem com os pés e gritam, choram e amam, arrancam cabelos e cospem quando algo lhes desagrada.
Che e a sua América são tudo isto e, muito mais do que um mito! Esta América desenha no olhar das suas gentes, nas vozes que ainda cantam "aquí se queda la clara, la entrañable transparencia..." o fim de toda a utopia, o fim dos mitos, a morte dos políticos!
Lá vive-se de fervor e de paixão, de melancolia e arrebatamento. O cheiro da América latina é de sangue e suor. Entranha-se na pele como se fosse um veneno ruim, um vício de mascar, de morder e rasgar, de fincar e temer, uma febre de não dormir, um grito de liberdade. Vou voltar, se vou! Vou voltar a esta América que de tão mítica, me quer mais que esta Europa tão política!
Vou começar por ver o filme, se não gostar cuspo para o lado!

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12 março 2009

 

A Velha Raposa

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Estreia hoje. Façam o favor de levantar esses rabos do sofá. Façam o favor de ir ao cinema! Atentamente e tal.
“Eastwood’s voice is not suddenly full of fire. It is equipped with an old man’s crackle and doesn’t often shift no matter the emotion of the moment. But in this story by Dave Johansson and Nick Schenk and with the spare and pointed dialogue in Nick Schenk’s screenplay, and with those ever haunting eyes that always made you believe Eastwood would kill you as Dirty Harry, it all comes together and works. Perhaps only for this film in this wonderful manner, but no matter because it’s a superb achievement (…) John Wayne found True Grit towards the end of his career and now Clint Eastwood has done the same with an unforgettable performance in Gran Torino, a film that is so simple in its telling that it almost slips by how powerful it really is”.
Michael Russnow, in Huffington Post

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# publicada por Chandra @ 3/12/2009 2 Comentários

08 março 2009

 

A terceira face.

"Penso que tenho sido suficientemente realista e é isso que sou nesta altura da vida. Sempre senti que as pessoas têm que evoluir. Se alguma vantagem há na idade, é o conhecimento e a experiência, até ao dia em que me surja alguma espécie de pré-senilidade, julgo que vou continuar a explorar isso. Mas se uma pessoa não está disposta a aceitar a idade que tem, não se pode fazer isto [continuar à frente das câmaras como actor sem temer a sua comparação com a imagem icónica de jovem actor]. Nesse caso uma pessoa não pode senão sentar-se e dizer, 'Bem há 40 anos atrás eu era esse tipo que corria e empunhava esta arma'. Não que não possa fazê-lo até determinado ponto, mas não está certo. O que é justo é jogar agora na minha área. Brinquei com a idade em "In the line of fire", mas agora é altura de dizer 'é isto que és e aquilo que serás'. Podia pintar o cabelo e dizer que voltei a ter 35 anos. Mas não tenho e não o vou fazer."
Clint Eastwood, in Film comment, 2005 execerto da entrevista de Amy Taubin, in Clint Eastwood, Um Homem com Passado, Cinemateca Portuguesa, Museu do Cinema, 2008, p.83

A propósito de Grand Torino

Foi ao som de uma salva de palmas que terminou a projecção de Grand Torino na passada sexta-feira na Cinemateca Portuguesa. Enterrada na cadeira fiquei presa ao tema final de Grand Torino e lembro-me de não ter vontade de sair da sala. Apetecia ficar por lá toda a noite, e rever os filmes de Eastwood com e sem o próprio. Clint Eastwood é um homem sem idade, um dos maiores realizadores vivos. É pois com assumida audácia que me arrogo afirmar: "existem dois tipos de amantes de Cinema os que se rendem a Clint Eastwood e... os outros".

Sergio Leone afirmou:"Eu gosto do Clint Eastwood porque ele tem somente duas expressões faciais. Uma com o chapéu e outra sem ele". Em Grand Torino Clint Eastwood põe o chapéu, tira o chapéu e olha-nos nos olhos! Grand Torino é pois muito mais do que apenas mais um filme de Eastwood. É a imagem projectada no espelho, é um álbum de memórias, a recolha de ícones cinematográficos criados pelo próprio Eastwood. Já aqui falei na dificuldade de escrever sobre os seus filmes, e com toda a seriedade esta dificuldade é cada vez maior. Mas é impossível resistir a esta terceira face de Eastwood, o seu olhar. O que mais me intriga e fascina nos filmes de Clint Eastwood é um denominador comum: o arrependimento por algo que se fez ou se deixou de fazer. A ideia de redenção é uma constante. Tudo se desenrola como se o realizador procurasse, através da absoluta humanidade que imprime nos seus filmes, encontrar a absolvição da culpa, do erro, da omissão, da ausência de discernimento e consciência, a ideia de transcendência e plenitude, no grande plano da moral ou do excesso dela. Neste Grand Torino Eastwood alcança, finalmente, a redenção. Apesar de não se confessar pelo (em) nome próprio, nunca entregando as mãos a quem o reporta a Deus, apesar de não acreditar na eternidade nem na feição "agridoce da morte", Clint atinge a paz redimindo-se do pecado capital. Clint deixa o chapéu, baixa a arma digital e confessa-se, por fim, de braços estirados na relva como o um novo redentor: Eis-me perante o Ti em nome da vingança que é tão enganadora como a própria morte. Clint Eastwood encontra o seu "Personal Jesus" e Grand Torino é um capítulo da Bíblia.

O cenário é a América de Obama, dos netos do Tio Sam, a América onde o crime tem nome de raça e de vergonha. São de raça e de vergonha os homens que em tempos partiram para a terra prometida. São de intolerância e de arrependimento, de multi culturalismo e identidades esquecidas, reprimidas. Clint é Walt Kowalski , um americano de descendência polaca, que herdou o perfil de Harry Callahan, o "dirty harry" de Siegel, o bom , o mau e o vilão numa só personagem. Walt Kowalsky é o cowboy de Leone, o justiceiro incorruptível, o inspector rabugento, o Frank Corvin da Ford, os homens de Iwo Jima, o estandarte da bandeira dos seus antepassados. É impossível não sentir uma enorme empatia por este Walt Kowalski, é impossível não chorar a sua morte. Mas é ainda bem mais agradável olhar Clint Eastwood através dos seus próprios olhos, sentido a sua própria música. Imperdoável esse olhar: casas comigo Clint?

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23 fevereiro 2009

 

Goes to...CINEMA!

Mais uma noite em claro para assistir, como manda a tradição, à 81.ª cerimónia dos Óscares! Este ano a expectativa era elevada em virtude do excelente rol de nomeados para as estatuetas douradas. Da lista de nomeados aos Óscares apenas faltou assistir ao Frost Nixon e The Wrestler. O último mês foi passado nas salas de cinema em absoluto deslumbramento com os filmes que tive o privilégio de guardar e que certamente vou rever muito em breve.
Exceptuando os indispensáveis ciclos da Cinemateca Portuguesa (atentem ao ciclo Clint Eastwood, ainda a decorrer) o ano de 2009 arrancou com a A Valsa com Bashir; a Troca; O Estranho Caso de Benjamin Button; Vicky Christina Barcelona; Milk; A Dúvida; Revolutionary Road; The Reader; Slumdog Millionaire; Happy Go Lucky (destaque especial par este grande filme de Mike Leigh).
No fim, feitas as previsões redigi uma lista que gostaria de ter visto aprovada, (que afinal não diverge muito da lista de vencedores da noite passada). Sem grandes análises, destaco especialmente o magnífico trabalho no The Reader, excelente realização de Stephen Daldry (um grande, grande realizador, muito apreciado por estes lados) não retirando o mérito a Danny Boyle (um dos meus realizadores favoritos). Contudo chamar à colação o Slumdog sem referir o trabalho de Fernando Meirelles na Cidade de Deus, seria negar a existência de outras lides no cinema que excedem as escolhas da Academia e ainda bem que assim é.
Merece referência especial o Óscar póstumo a Heath Ledger que desempenhou o melhor Jocker da história do Batman. Uma salva de palmas para a senhora Penélope Cruz que arrecadou, e muito bem, a estatueta dourada agradecendo em castelhano. Só faltou mesmo uma demonstração do seu "Ataque de nervos" (ela bem avisou que poderia desmaiar). Uma ovação a Sean Penn que me deixou sem fôlego pela sua interpretação de Havey Milk e que foi responsável por uma das mais interessantes intervenções da noite, promovendo a reflexão sobre o casamento ente homosexuais, um elogio a Barack Obama e uma particular referência ao regressado Mickey Rourke: “You’re my Brother”. Por fim, e porque não poderia deixar de ser, Kate Winslet! A senhora que tem o privilégio de ter o Sam Mendes na sua vida, já merecia um reconhecimento por parte da Academia. Kate desempenhou um papel extraordinário no filme de Todd Field, Little Children e consagrou-se definitivamente em Revolutionary Road. Mas foi com a magnífica interpretação de Hanna Schmitz, no imperdível romance do escritor e jurista alemão Bernhard Schlink, que Kate colocou de vez as cartas na mesa!
Kate Winslet consagrou-se como mais uma grande promessa num palmarés de luxo que era liderado pela Senhora M. Streep. De resto foi delicioso o discurso de Kate bem como a reacção de Angelina Jolie (que está excelente na Troca de Eastwood): “And I want to acknowledge my fellow nominees, these goddesses. I think we all can't believe we're in a category with Meryl Streep at all”.
Depois da entrega dos prémios, subsiste a imensa curiosidade para o filme de um promissor realizador Daron Aronofsky (já muito apreciado por estes lados). Resta-me agora aguardar com muita expectativa Grand Torino do mestre Eastwood e o regresso de Tarantino.
Resumindo, eis a lista dos meus nomeados que em minha opinião seriam os justos vencedores:
Melhor Filme – The Reader
Melhor Realizador – Stepehn Daldry, The Reader
Melhor Actor – Sean Penn, Milk
Melhor Actriz – Kate Winslet, The Reader
Melhor Actor Secundário – Heath Ledger, The Dark Knight
Melhor Actriz Secundária – Penélope Cruz, Vicky Cristina Barcelona
Melhor Argumento Original – Milk
Melhor Argumento Adaptado – The Reader
Melhor Filme de Língua Estrangeira – A Valsa com Bashir
Melhor Filme de Animação – Wall-E
Melhor Fotografia – Slumdog Millionaire
Melhor Montagem – Slumdog Millionaire
Melhor Banda Sonora – The Curious Case of Benjamin Button
Melhor Canção Original – Down to Earth, Wall-E
Melhor Direcção Artística – The Curious Case of Benjamin Button
Melhores Efeitos Sonoros – The Dark Night
Melhor Montagem de Som – The Dark Knight
Melhores Efeitos Visuais – The Curious Case of Benjamin Button
Melhor Caracterização – The Curious Case of Benjamin Button

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# publicada por Chandra @ 2/23/2009 2 Comentários

16 fevereiro 2009

 

The lady and the little puppet


The Reader, Stephen Daldry, (2008)

Categoria: Filmes que mudam uma vida...
Brilhante!

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# publicada por Chandra @ 2/16/2009 0 Comentários

01 fevereiro 2009

 

Woody, Paco, Sean, Barcelona.

Hoje foi dia de dose dupla:
Vicky Cristina Barcelona , Woody Allen (2009)


Paco de Lucía, Entre dos Aguas (1976)
A melhor interpretação masculina: Sean Penn! Milk, de Gus Van Sant (2009)

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# publicada por Chandra @ 2/01/2009 0 Comentários

31 janeiro 2009

 

The Dove and The Hummingbird

David Fincher não pára de me deixar sem fôlego. Depois de Zodiac, este Estranho Caso. Eis sem dúvida um dos meus posts favoritos neste espaço. E porquê? Vejam o filme e oiçam One Dove. "Hope you life a live you'll be proud of"! "Uns foram feitos para viajar, outros foram feitos para serem atingidos por um raio, outros nasceram para serem mães, outros nasceram para recitar Shakespeare, outros foram feitos para dançar".
E se...? Este é um filme que melhor retrata a Teoria do Determinismo. E se David Fincher tivesse encontrado este tema de Antony: certamente seria parte da BSO e não se chamaria One Dove mas sim The Hummingbird (O Colíbri).
Uns fazem cinema, outros cantam...
Deixo cair o pano, não consigo descrever a Beleza porque essa é absoluta! "I hope you live a life you're proud of. If you find that you're not, I hope you have the strength to start all over again."
David Fincher, The Curious Case of Benjamin Button , 2008

Antony and the Johnsons, The Crying Light

ONE DOVE
One dove
You’re the one
I’ve been waiting for
Through the dark fall
The nightmares the lonely nights
I was born
A curling fox in a hole
Hiding from danger
Scared to be alone
One dove
To bring me some peace
In starlight you came from the other side
To offer me mercy
One dove
I’m the one you’ve been waiting for
From your skin
I am born again
I wasn’t born yesterday
You were old and hurt
I was longing to be free
I see things you were too tired
That you were too scared to see
One doveTo bring me some peace
In starlight you came from the other side
To offer me mercy

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# publicada por Chandra @ 1/31/2009 0 Comentários

04 janeiro 2009

 

Cessar fogo!


Lisboa, 4 de Janeiro de 2009,
Depois do primeiro filme do ano de 2009, certamente "um dos Filmes do Ano de 2009", começa assim o Jornal da Noite: “Boa noite, a imagem de hoje é uma imagem de guerra. As forças Israelitas avançam pela cidade de Gaza..."
As notícias não desmentem a continuidade do pesadelo em Gaza. A "Valsa com Bashir" retrata o pesadelo persistente após as memórias do massacre de Sabra e Chatila há 26 anos atrás. Mas esta "valsa" é muito mais que um relato do massacre. É um testemunho, uma mea culpa de um filho de Israel. É um relato de todas as vítimas e forças em conflito na guerra do Líbano na década de 80. É um retrato humano, com as expressões certas, impressões fortes. A invasão de Beirute, os seus protagonistas: as forças em conflito, as gerrilhas, as vítimas. É de uma humanidade absoluta! É quase um filme de época, não fora a continuídade dos conflitos no médio oriente, não fora o pesadelo entre israelitas e palestinianos! É animação, é cinema documental, é peça histórica, é comovente, é absoluto! É silêncio, o silêncio na sala que se segue após os éditos finais dos grandes filmes! É obrigatório. A rever certamente. Filme extraordinário!

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# publicada por Chandra @ 1/04/2009 0 Comentários

07 dezembro 2008

 

Liber scriptus proferetur, unde mundus judicetur.

"Este é um livro francamente terrível com o qual eu quero que o leitor sofra tanto como eu sofri ao escrevê-lo. Nele se descreve uma longa tortura. É um livro brutal e violento e é simultaneamente uma das experiências mais dolorosas da minha vida. São 300 páginas de constante aflição. Através da escrita, tentei dizer que não somos bons e que é preciso que tenhamos coragem para reconhecer isso."
José Saramago, (Apresentação púbica do ensaio sobre a Cegueira)

Depois de ter escutado uma entrevista com José Saramago na passada sexta feira e de ter anuído à tentação consumista da Viagem do Elefante… lá cedi ao filme. Note-se que as expectativas eram nulas. Após um processo inicial de grande curiosidade, aliada à admiração pelo trabalho de Fernando Meirelles e Julianne Moore, vieram as críticas e os comentários dos amigos… motivos vários remeteram o "Ensaio" para hoje.
Após o filme, no automático regresso a casa, é impossível não recolher memórias remetendo-as para especulações estéticas, recordando mestres da pintura, do cinema e da literatura. Memórias de uma leitura distante mas que me causaram um quadro mental estereotipado que dificilmente algum cineasta, pintor ou fotógrafo poderiam reproduzir.
A primeira reacção no final do filme é pois meramente ensaística. E se o romance de Saramago tivesse sido realizado por D. Cronenberg, e se tivesse sido adaptado por Carpenter, David Lynch, ou mesmo Ingmar Bergman? E se a banda sonora contasse a perfeição de P. Glass, ou mesmo a mestria de Alfred Schnittke?
Poderíamos multiplicar os exemplos, mas o que pretendemos verdadeiramente é centrarmo-nos no fenómeno criação/interpretação. A tremenda responsabilidade de Meirelles ao aceitar o desafio de transpor para o cinema a maior alegoria de Saramago talvez tenha viciado a forma e o espaço, sobrevalorizando o recurso a lugares comuns. A história é confinada quase unicamente à Ala dos Cegos, ao invés de recorrer ao caos dantesco que se instala nas cidades e nos Homens. As personagens não são mais do que arquétipos simples, esquecendo o modelo paradigmático humano das personagens do romance de Saramago. Lembro-me após ter terminado a leitura do Ensaio sobre a Cegueira de ter pensado o enorme sofrimento, a enorme angústia que o escritor terá sentido para compor tamanhas e tão tremendas imagens. Sentia-me eu própria angustiada, enojada, assustada, confessando-me e revendo-me quiçá no interior daquele quadro, reproduzindo os mesmos actos hediondos de algumas das figuras humanas retratadas na Cegueira. Esta é a obra que terá ferido, maltratado, malogrado o escritor. Este é um exemplo de como a obra pode levar o criador ao sofrimento, ao desespero. E quando a obra angustia de tal forma aquele que a cria então sim, estamos perante um fenómeno único de criação.
Não é o que acontece neste filme de Meirelles. Contrariamente à excelente adaptação cinematográfica do livro de Jonh le Carré, contrariamente à saga da Cidade de Deus e da Cidade dos Homens, este ensaio não passa disso, um filme-ensaio. Um filme que tenta aproximar-se da obra sem contudo lhe imprimir as texturas da dor. Seja como for, o desconforto suscitado pelo filme de Meireles é suficiente para levar o leitor omisso a devorar o livro de Saramago, o que por si é meritório.
Com efeito, não é fácil transpor para o cinema a obra-prima. Imagine-se a produção cinematográfica perfeita da obra maior de Cervantes? Quem (senão talvez Tarkovsky ou Sukurov) conseguiria filmar o Crime e Castigo sem necessidade de redenção imediata? Que realizador poderia transpor para cinema um Jardim das Delícias à escala de Bosch, que compositor poderia compor em tons imaculados a obra de Caravaggio (embora Derek Jarman tenha feito um excelente trabalho na sua adaptação). A questão é então determinar se é possível imprimir a mesma qualidade estética em duas formas de expressão artística diferentes.
Qualquer que seja a verdade em relação à liberdade e às potencialidades criadoras do “homem/ artista”, a verdade é que nenhum estado de espírito humano pode permanecer inalterado após o acto terrífico de criar.
O acto de criar é pois distinto do acto de interpretar. Após o acto de Criação o espírito humano toma contacto com outros níveis de realidade que de outro modo lhe seriam inacessíveis. Interpretar por vezes, não vai para além da mera percepção dessa realidade.
Criar implica, um sofrimento atroz. Escrevia Herman Hesse “…o artista sofre pois vê terrivelmente e demais…”
Mas de que vale este “sacrifício” do artista/criador se o interprete não está à sua escala?
Dificilmente alguém pode interpretar e contar aos outros o que ele próprio não terá vivido, mas porque não tentar? E Meirelles tentou e tentou bem. A questão é que o Ensaio sobre a Cegueira é uma Criação que terá dilacerado o seu autor e talvez Meirelles não tenha sentido, ainda com tamanha acutilância, o “aguilhão” da condição humana.
Saramago experimentou o ferrão da condição do Homem, nele se consome e dele se isola. O sofrimento e a solidão são fórmulas perfeitas da criação ou seja, aquelas que levam o Homem a interpretar-se e a criar-se a si mesmo.

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# publicada por Chandra @ 12/07/2008 0 Comentários

21 novembro 2008

 

Buñuel no México e no Estoril

" Los Olvidados (1950)"

Hoje e amanhã, ainda vamos a tempo! Não se pode perder no âmbito do Estoril Film Fest a exposição México Fotografado por Luís Buñuel. A exposição está patente no Centro de Congressos do Estoril e reúne uma colecção de imagens que o realizador captou na etapa de preparação dos filmes que realizou no México. Entre estes salientamos um dos filmes mais emblemáticos da“fase mexicana” de Luís Buñuel: Los Olvidados.
“ Durante quatro ou cinco meses dediquei-me, sozinho, a percorrer as cidades perdidas, ou seja os arredores empobrecidos, improvisados, muito pobres, que cercam a Cidade do México. Algo disfarçado, vestido com roupas velhas. Olhava, escutava, fazia perguntas, fazia amizade com toda a gente.” L. Buñuel.

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# publicada por Chandra @ 11/21/2008 0 Comentários

18 junho 2008

 

Filme do ano?

"Alexandra", Alexander Sukurov, 2008

Já aqui falámos de A. Sukurov, o realizador de Arca Russa, Mãe e filho (um dos filmes mais belos desde as pinturas cinematográficas de Sergei Eisenstein e Andrei Tarkovsky). Uma breve nota só para classificar este filme: Obrigatório!

Enquanto não escrevo mais sobre este "Avó e Neto", ficam as imagens aqui.
Nota: "A Arca Russa" (2002), longa metragem assinada por A. Sukurov vai ser reposta na Cinemateca Portuguesa já na próxima segunda -feira dia 23/6, às 19h30 na Sala Luís de Pina.

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# publicada por Chandra @ 6/18/2008 0 Comentários

23 abril 2008

 

Youth Without Youth: o erro de Coppola

Excelente tema, excelente adaptação do romande de Mircea Eliade. Muito bom, muito bom mesmo. E se David Linch se lembrasse de fazer esta adpatação?
Apesar de se tratar de um grande filme, de um novo e inédito Coppola, é pena constatar que nem sempre a forma, nem mesmo a melhor forma cinematográfica, consegue resumir tanto e tão tremendo conteúdo.
Não tenho muito tempo para escrever sobre este filme, mas tal como Francis Ford Coppola tentou demonstar, até com o seu erro, nem sempre há tempo para tudo!
Namaste.

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# publicada por Chandra @ 4/23/2008 0 Comentários

08 janeiro 2008

 

07

Segue-se a lista dos filmes que durante 2007 fizeram as honras da 7.ª arte. As cinco menções honrosas que elogiam o ano, seguem-se numa ordem estritamente pessoal:
1- O lugar ao sol é entregue a Death Proof o elogio retro de Quentin Tarantino que abriu portas aos novos caminhos na estética do cinema onde a liberdade, o atrevimento e o absurdo acontecem sobre a égide dos diálogos mais bem conseguidos da década. Muito bom!
2- The Fountain de Darren Aronofsky ignorado por grande parte da crítica, é uma obra-prima. Trata-se da forma mais bela de filmar o Amor, o sentido da vida e os limites da consciência. É um filme transcendente que vem aliar a ciência à metafisica de uma forma arrebatadora. The Fountain é filme que merece o mesmo adjectivo que pode ser entregue à vida: é maravilhoso!
3- Em terceiro lugar, e porque o David Lynch é um mestre, e porque o seu cinema deriva de causas maiores que vão para além dos sentidos, Inland Empire: "lets not try to figure out everything at once".
4-Little Children de Tood Field é um dos grandes acontecimentos cinematográficos do ano. Um retrato da hipócrisia da sociedade norte americana, um regresso à infância, na vida dos adultos, nas memórias das crianças, nas infantilidades de uma sociedade castrante, onde a liberdade se perde em prol da falsa moral. Onde se elogia, com mestria, o papel social da mulher e sua tremenda coragem. 5- Letters from Iwo Jima, de Clint Eastwood é mais obra prima que sai das mãos do cineasta que soube filmar um cenário de guerra com os olhos postos na câmara e o argumento centrado na condição humana. Medos, incertezas, afectos, identidades, arrependimentos... a ténue fronteira entre os bons e os maus da fita. Clint Eastwood despe-se de patriotismos para filmar a guerra sem ressentimentos. Letters from Iwo Jima, guarda, na memória do cinema, o que a história não consegue lembrar nos desígnios da humanidade.
6- Eastern Promisses - David Cronenberg
7- Paranoid Park - Gus van Sant
8- Lady Chatterley -Pascale Ferran
9- Zodiac- David Fincher
10- Honor de Cavalleria- Albert Serra

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# publicada por Chandra @ 1/08/2008 4 Comentários

31 outubro 2007

 

In the Kingdom of the Blind...

Em Land of the Blind filme que desaconselho, Ralph Fiennes desempenha o papel de protagonista com o mérito de um grande Senhor do Cinema. No geral, sendo um filme “não muito agradável”, aproveita-se o Fiennes que encarna a personagem de Joe, um homem preso nas malhas da política, do terrorismo e do contra terrorismo.
Tal como no filme, Fiennes mesmo cego, é Rei ("In the Kingdom of the Blind the one eyed are kings").

Ainda assim, sabendo que o filme é … o que é... quem pode deixar de ver o Fiennes no grande ecrã?

Ralph Fiennes é a prova viva da inspiração divina! Salve o Rei.
Deus Existe.

Etiquetas: Cinema, Ralph Fiennes


# publicada por Chandra @ 10/31/2007 0 Comentários

26 outubro 2007

 

Personal Trash?

Planet Terror é um filme para gostar ou detestar muito. Não há zonas cinzentas, estamos perante um filme de extremos e para andar de pulsos soltos, bem soltos…
No extenso rol de cenas hilariantes/chocantes (depende da perspectiva e do estômago de cada um) uma verdade absoluta: Tarantino e Rodriguez sabem escolher as suas protagonistas!
Planet Terror é a prova viva (ou quase viva, depende do grau de decomposição) que o descomedimento no cinema afinal não tem limites! Gostei, gosto de exageros!
No fim, depois de analisada a saga Grindhouse, resta a pergunta… e agora Mr Tarantino, o que se segue?

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# publicada por Chandra @ 10/26/2007 0 Comentários

01 agosto 2007

 

Bergman e Antonioni

O início da semana fica marcado pela despedida de dois “poetas da tela” Ingmar Bergman e Michelangelo Antonioni, juntemos também um adeus Michel Serrault…
É…os poetas estão a despedir-se em silêncio. Os testemunhos familiares afirmam que partiram “com serenidade”, e de que outra forma poderiam partir os os que já cumpriram a missão, aqueles que deixaram obra?
Tinha o hábito de dizer que, a par de alguns cineastas como Sukurov, Mikalkov, Sergei Eisenstein e Andrei Tarkovski, Bergman encarnava a alma russa florescida na Escandinávia.
Dizia-o um poeta das imagens, o transgressor incauto do drama das relações humanas, o violador da Pandora das emoções, o guardião do sétimo selo, que resguarda os segredos do sentir mais fundo, o cantor do intimismo e beleza, um realizador metafísico, o código de Bergman.

Há muitas forma de fazer cinema mas é muito difícil filmar com poesia, e fazê-la brotar em cada cena, a cada segundo, a casa suspiro, em cada olhar, nas mistura das cores, nos silêncios cúmplices, na plenitude do tempo, na inevitabilidade do fim. Comparava Bergman a K. Kieslowsky e julgava-os imortais. Estes cineastas selaram um Pacto com o Universo, com o sentir profundamente humano, e o acordo passava pela cláusula única: eu filmo-Te, nunca me deixarás partir!
Iniciada a viagem, fica a poesia aliada à vontade imperiosa de rever Gritos e Sussurros, A Flauta Mágica, O Silêncio, Fanny e Alexander, Segredos das Mulheres, o sublime Persona, o Sétimo Selo. Bergman sempre foi inspirado no teatro, e como se diz nas lides cénicas, uma ovação de pé!
Cá por casa roda uma compilação de composições de Z. Preisner, e alguns formatos VHS vão ser transpostos para outros suportes mais intemporais.
Antonioni o mestre italiano que partilhava a o pódio com F. Fellini e de R. Rossellini, também saiu de cena, deixando-nos a herança Blowup, muito bem revisitada por cineastas como Q. Tarantino. Mas legou-nos muito mais que isso, Antonioni fez voltar de página do dogma neo-realista e dos melodramas multipessoais. Foi o cineasta dos eclipses, o embaixador do cinema moderno em diálogo constante com a fotografia, a pintura e a literatura.
Sobre a obra de Antonioni cito Orson Welles: “Não gosto de me alongar nas coisas. Antonioni dá um plano aberto de alguém andando pela rua, da cabeça aos pés. E você pensa: Bom, ele não vai levar essa mulher até o fim da rua. Mas leva. Aí a mulher some e você continua olhando a rua, depois de ela ter sumido".
Venha um grande plano de Antonioni a toda a sua obra, um grande plano de Antonioni a toda a obra de Bergman, pois os espectadores continuarão a olhar para a tela depois da imagem ter adormecido!

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# publicada por Chandra @ 8/01/2007 2 Comentários
 

Michelangelo Antonioni (1912-2007)

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# publicada por Chandra @ 8/01/2007 0 Comentários

30 julho 2007

 

Bergman

"... The hopeless dream of being - not seeming, but being. At every waking moment, alert. The gulf between what you are with others and what you are alone. The vertigo and the constant hunger to be exposed, to be seen through, perhaps even wiped out... "
Ingmar Bergman, Persona (1966)

Faleceu o mestre, ficou a obra.
Ingmar Bergman, 14 de Julho de 1918-30 Julho 2007

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# publicada por Chandra @ 7/30/2007 2 Comentários

24 julho 2007

 

"Did you hear that Butterfly? Miles to go before you sleep."

Death Proof é mais do que apenas mais um filme de Quentin Tarantino. É adrenalina total, Tarantino puro, a transcrição literal do conceito: farra cinematográfica.
Inicialmente concebido como homenagem ao cinema undergruound dos anos 70, massificado no género grindhouse, Death Proof acaba por ser uma paródia espectacular onde o realizador usa e abusa de alguns dos seus unknown pleasures e clichés de luxo: o country barman, a nudez dos pés femininos, a Jukebox, o vinil, as bandas rock dos anos 70, lap dances, tudo isto e muito mais na versão take a walk on the wild side babe!
Tarantino regressa em jeito do grande mestre que já é, pois só os grandes mestres conseguem filmar o absurdo e dele fazer arte, e da boa.

Logo no início da película o aviso: “This film has a restricted image”! Em jeito de fanfarra estética seguem-se sequências de imagem hilariantes, desde os saltos deliberados às mudanças de cor intencionais, aos quais acrescem as legendas western county, que servem de aperitivo aos deliciosos diálogos das protagonistas. Ninguém escreve diálogos como Quentin Tarantino!
Se é certo que Pulp Fiction se celebrizou pelos famosos diálogos masculinos, recorde-se a hilariante dissertação sobre o “Quarter Pounder with Cheese” e “Le Big Mac", Death Proof enfatiza o eterno feminino nos deslumbrantes diálogos das amigas, e da não menos histórica contra argumentação “Whatever-However" de Kim e Zoë Bell.
Mas Death Proof é muito mais que isto. É um tributo ao Feminino no seu todo com destaque para admirável junção de dois perfis assimétricos: a mulher bela, feroz, primitiva e insegura (Jungle Julie; Arlene/Butterfly) e a mulher sofisticada, madura, vingativa e vencedora (Kim, Zoe; Albernathy).
Mas no geral trata-se de uma afirmação do carácter insubmisso, intolerante e reactivo à autoridade, ao despotismo e à prepotência masculinas. Este é o denominador comum das heroínas de Tarantino. Desconfia de mim sobretudo se sou bela, teme-me se te inscrevo na lista negra! Uma Thurman e Pam Grier encarnaram na perfeição esta faceta em Kill Bill e Jackie Brown. Death Proof reafirma a bela vilã sedenta de vingança, implacável na classe e engenho na perseguição das suas presas. Death Proof é pois, o mais recente fétiche de Tarantino.
O universo 70’s é revisitado na perfeição, apesar das mensagens sms e dos i-pod que ligam os espectadores aos tempos modernos. Neste desfile de imagens e transgressões rodoviárias são várias as chalaças e alusões a Jackie Brown e Kill Bill: o toque de telemóvel, o carro amarelo e preto...e a paródia passa também pelo excerto a um dos diálogos da Bride.
Desde Reservoir Dogs Tarantino habituou-nos a BSO’s de Luxo e, mais uma vez, o elenco musical de Death Proof é magnífico! Talvez um dos melhores sets de Tarantino! Rock me baby ‘cause i like it!
Por certo não tardarão as criticas ao culto do trash, aos diálogos demasiadamente longos, à escola Blow up e linhagens de série Z revisitadas sem pudor. Preciosismos!
É que Death Proof é cru até na sua perfeição e, melhor que isso, Tarantino dá-se a esse luxo!

Etiquetas: Cinema


# publicada por Chandra @ 7/24/2007 11 Comentários

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