07 dezembro 2008
Liber scriptus proferetur, unde mundus judicetur.
"Este é um livro francamente terrível com o qual eu quero que o leitor sofra tanto como eu sofri ao escrevê-lo. Nele se descreve uma longa tortura. É um livro brutal e violento e é simultaneamente uma das experiências mais dolorosas da minha vida. São 300 páginas de constante aflição. Através da escrita, tentei dizer que não somos bons e que é preciso que tenhamos coragem para reconhecer isso."
José Saramago, (Apresentação púbica do ensaio sobre a Cegueira)
José Saramago, (Apresentação púbica do ensaio sobre a Cegueira)
Depois de ter escutado uma entrevista com José Saramago na passada sexta feira e de ter anuído à tentação consumista da Viagem do Elefante… lá cedi ao filme. Note-se que as expectativas eram nulas. Após um processo inicial de grande curiosidade, aliada à admiração pelo trabalho de Fernando Meirelles e Julianne Moore, vieram as críticas e os comentários dos amigos… motivos vários remeteram o "Ensaio" para hoje.
Após o filme, no automático regresso a casa, é impossível não recolher memórias remetendo-as para especulações estéticas, recordando mestres da pintura, do cinema e da literatura. Memórias de uma leitura distante mas que me causaram um quadro mental estereotipado que dificilmente algum cineasta, pintor ou fotógrafo poderiam reproduzir.
A primeira reacção no final do filme é pois meramente ensaística. E se o romance de Saramago tivesse sido realizado por D. Cronenberg, e se tivesse sido adaptado por Carpenter, David Lynch, ou mesmo Ingmar Bergman? E se a banda sonora contasse a perfeição de P. Glass, ou mesmo a mestria de Alfred Schnittke?
Poderíamos multiplicar os exemplos, mas o que pretendemos verdadeiramente é centrarmo-nos no fenómeno criação/interpretação. A tremenda responsabilidade de Meirelles ao aceitar o desafio de transpor para o cinema a maior alegoria de Saramago talvez tenha viciado a forma e o espaço, sobrevalorizando o recurso a lugares comuns. A história é confinada quase unicamente à Ala dos Cegos, ao invés de recorrer ao caos dantesco que se instala nas cidades e nos Homens. As personagens não são mais do que arquétipos simples, esquecendo o modelo paradigmático humano das personagens do romance de Saramago. Lembro-me após ter terminado a leitura do Ensaio sobre a Cegueira de ter pensado o enorme sofrimento, a enorme angústia que o escritor terá sentido para compor tamanhas e tão tremendas imagens. Sentia-me eu própria angustiada, enojada, assustada, confessando-me e revendo-me quiçá no interior daquele quadro, reproduzindo os mesmos actos hediondos de algumas das figuras humanas retratadas na Cegueira. Esta é a obra que terá ferido, maltratado, malogrado o escritor. Este é um exemplo de como a obra pode levar o criador ao sofrimento, ao desespero. E quando a obra angustia de tal forma aquele que a cria então sim, estamos perante um fenómeno único de criação.
Não é o que acontece neste filme de Meirelles. Contrariamente à excelente adaptação cinematográfica do livro de Jonh le Carré, contrariamente à saga da Cidade de Deus e da Cidade dos Homens, este ensaio não passa disso, um filme-ensaio. Um filme que tenta aproximar-se da obra sem contudo lhe imprimir as texturas da dor. Seja como for, o desconforto suscitado pelo filme de Meireles é suficiente para levar o leitor omisso a devorar o livro de Saramago, o que por si é meritório.
Com efeito, não é fácil transpor para o cinema a obra-prima. Imagine-se a produção cinematográfica perfeita da obra maior de Cervantes? Quem (senão talvez Tarkovsky ou Sukurov) conseguiria filmar o Crime e Castigo sem necessidade de redenção imediata? Que realizador poderia transpor para cinema um Jardim das Delícias à escala de Bosch, que compositor poderia compor em tons imaculados a obra de Caravaggio (embora Derek Jarman tenha feito um excelente trabalho na sua adaptação). A questão é então determinar se é possível imprimir a mesma qualidade estética em duas formas de expressão artística diferentes.
Qualquer que seja a verdade em relação à liberdade e às potencialidades criadoras do “homem/ artista”, a verdade é que nenhum estado de espírito humano pode permanecer inalterado após o acto terrífico de criar.
O acto de criar é pois distinto do acto de interpretar. Após o acto de Criação o espírito humano toma contacto com outros níveis de realidade que de outro modo lhe seriam inacessíveis. Interpretar por vezes, não vai para além da mera percepção dessa realidade.
Criar implica, um sofrimento atroz. Escrevia Herman Hesse “…o artista sofre pois vê terrivelmente e demais…”
Mas de que vale este “sacrifício” do artista/criador se o interprete não está à sua escala?
Dificilmente alguém pode interpretar e contar aos outros o que ele próprio não terá vivido, mas porque não tentar? E Meirelles tentou e tentou bem. A questão é que o Ensaio sobre a Cegueira é uma Criação que terá dilacerado o seu autor e talvez Meirelles não tenha sentido, ainda com tamanha acutilância, o “aguilhão” da condição humana.
Saramago experimentou o ferrão da condição do Homem, nele se consome e dele se isola. O sofrimento e a solidão são fórmulas perfeitas da criação ou seja, aquelas que levam o Homem a interpretar-se e a criar-se a si mesmo.
Etiquetas: Cinema
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